O tempo estava conturbado, nos meados dos anos 60 do século passado, na sala do Alto Comando da Polícia Militar, em Salvador – Bahia, e não era pelo avanço do golpe militar, uma afronta à Constituição e sim, por um problema que no sentir do comandante, um beato de quatro costados, era uma indignidade.
Torpeza essa que segundo seus princípios militares e religiosos não poderia ser registrada da forma que foram elaboradas as diversas minutas apresentadas a ele.
Os oficiais inferiores estavam em polvorosa, afinal o aludido Boletim teria que registrar as cóleras dos artigos, incisos, parágrafos e alíneas do arcabouço legal, entretanto, a questão era como explicitar o crime perpetrado de forma a minorar os seus efeitos danosos e repugnantes aos quantos virem tomar conhecimento do fato, além de abrandar a iracúndia do comandante.
Aquele Boletim com as redações apresentadas, após sua chancela, no seu entendimento de comandante e de devoto exacerbado ficaria nos anais da Instituição como uma nódoa eterna que a enxovalharia e respingaria em profusão, também, na Santa Igreja Católica.
A quilômetros da capital, numa cidade do interior onde o poder econômico e político estavam na mão de um fazendeiro conhecido pela sua religiosidade extremada, como pela sua capacidade de colocar filhas no mundo, a vida seguia seu curso natural.
Do casamento sob as bênçãos da Santa Madre Igreja tinha 06 (seis filhas) e sob os descuidos não tão descuidados assim, da mesma Igreja retrógrada, o fazendeiro tinha mais 08 (oito) filhas de amantes diversas.
Essa era a razão de ser conhecido nas cercanias como o coronel: “Zé das Moças”.
As suas incursões sexuais com as filhas dos outros era natural e prevaleciam apenas os seus apetites, mas, quanto se tratava de suas meninas, as oficiais ou as bastardas, as coisas mudavam de figura, literalmente, que diga o povo.
No ano anterior, um infeliz que apenas bolinou os peitinhos da filha mais velha, sobreviveu à intervenção nada cirúrgica do coronel Zé das Moças e ao restabelecer-se, meses depois, resolveu apalpar a genitália e sentiu apenas uma canícula (para a passagem da urina). O sentimento de pejo avolumou-se e quando o encontraram estava dependurado numa corda, ainda balançando, como outrora balangava seus bagos e o bigulau.
Os pretendentes passavam por um crivo desgraçado e segundo as línguas viperinas era mais fácil a canonização de um santo sem os mínimos pré-requisitos necessários a uma aprovação de namoro pelo coronel.
Um destacamento da polícia militar, composto por um tenente, um cabo e três praças, da área de telecomunicações, foi enviado pelo o Estado Maior para a instalação de um sistema de comunicações naquela cidadezinha interiorana.
O fazendeiro/coronel, Zé das Moças, ao tomar ciência da chegada do grupo, mandou chamar imediatamente o tenente e ofereceu uma das casas da fazenda para o abrigo dos policiais militares, com direito a comida e roupa lavada.
O tenente, a contragosto, aceitou a oferta do coronel por saber do gênio e das atitudes do Zé das Moças repassadas pelo Setor de Inteligência da Corporação.
O serviço árduo como diabo ia progredindo, mas com a chegada da Semana Santa houve uma desaceleração quase total, pois, as obrigações religiosas impostas pela Igreja e pela força do Zé das Moças que bancava todos os custos dos fiéis, da alimentação ao transporte e quiçá a moradia improvisada, não podia prescindir da autoridade militar, o tenente e também dos praças.
O tenente participava contrariado, pois estava aperreado pelo atraso no cronograma dos serviços, em função daquela liturgia religiosa e pelo fato de ser um ateu desgraçado, mas, afinal obrigação é obrigação.
Aquela Sexta-Feira da Paixão ficou marcada na mente do tenente para sempre.
Não pela celebração solene da Ação Litúrgica que recorda a morte do Salvador, mas pela presença do bispo, ainda todo paramentado, com as vestes de cor vermelha com a presença vermelha de ira e indignação do coronel, o Zé das Moças, que aos berros gritava a pleno pulmões:
“Tenente. Tenente. Quero uma ação imediata do contrário vai haver uma desgraceira amanhã, não hoje, em respeito à morte do Nosso Senhor Jesus Cristo. Tenenteeeee.”
O tenente esbaforido foi ao encontro das duas autoridades que com ele passavam a três.
Antes de ter tempo para indagar qualquer coisa ao fazendeiro/coronel, Zé das Moças, esse com as mãos trêmulas de ódio foi logo dizendo:
“Exigo uma punição exemplar contra um dos safados de seus praças que foi pego fazendo mal a uma das minhas éguas”.
O tenente não teve tempo para pronunciar a primeira palavra, pois, o Zé das Moças, com a voz embargada e completamente destroçado fisicamente, complementou: “Ainda por cima, a eguinha era moça.”
As suas primeiras palavras foram: “Que negócio da porra!”.
Agora, na ante-sala do Alto Comando, o tenente aguardava tenso a convocação do comandante.
Esse resolvera dar a redação final ao meio do último parágrafo daquele Boletim de Exclusão das fileiras da Polícia Militar: “........ expulso por ato libidinoso e por conjugação carnal não consensual”.
Aquele comandante não cometera nenhum ilícito, apenas omitira que a relação carnal havia sido feito com um animal, uma égua mais precisamente e desta forma, protegera a imagem da Polícia Militar e mitigava o pecado perpetrado naquela Sexta-Feira Santa.
Nervoso e indignado o comandante ordenou a entrada do tenente.
O tenente cumpriu a liturgia militar de apresentação e por uns cinco minutos aguardou, em posição de sentido, a interlocução do comandante que descontrolado disse: “Tenente, que negócio ......”
O tenente, antes de deixar o comandante completar a sua indagação e sem refletir, por mero transtorno que a observação daquele fazendeiro/coronel, o Zé das Moças, causou ao mencionar a ex-virtude daquela eguinha, respondeu:
“Foi um negócio da porra, comandante”.
Não foi expulso como o soldado, mas está amargando 21 dias de cadeia e passa as horas repetindo: “Que negócio?”
“Que negócio?”
Agora tendo o cuidado de suprimir o complemento de sua frase: “da porra”.
Afinal, essa palavra é substantiva na gramática e na vida, causando filhos desejados ou não, traições, golpes do baú, mortes, condenações e no caso específico dele uma prisão que fará parte da sua ficha funcional que fatalmente o impedirá de alcançar o posto máximo da carreira, o de coronel.
Agora digo eu que não tenho nada com a estória: “que negócio complicado da porra”.
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