quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Que negócio!

O tempo estava conturbado, nos meados dos anos 60 do século passado, na sala do Alto Comando da Polícia Militar, em Salvador – Bahia, e não era pelo avanço do golpe militar, uma afronta à Constituição e sim, por um problema que no sentir do comandante, um beato de quatro costados, era uma indignidade.

Torpeza essa que segundo seus princípios militares e religiosos não poderia ser registrada da forma que foram elaboradas as diversas minutas apresentadas a ele.

Os oficiais inferiores estavam em polvorosa, afinal o aludido Boletim teria que registrar as cóleras dos artigos, incisos, parágrafos e alíneas do arcabouço legal, entretanto, a questão era como explicitar o crime perpetrado de forma a minorar os seus efeitos danosos e repugnantes aos quantos virem tomar conhecimento do fato, além de abrandar a iracúndia do comandante.

Aquele Boletim com as redações apresentadas, após sua chancela, no seu entendimento de comandante e de devoto exacerbado ficaria nos anais da Instituição como uma nódoa eterna que a enxovalharia e respingaria em profusão, também, na Santa Igreja Católica.

A quilômetros da capital, numa cidade do interior onde o poder econômico e político estavam na mão de um fazendeiro conhecido pela sua religiosidade extremada, como pela sua capacidade de colocar filhas no mundo, a vida seguia seu curso natural.

Do casamento sob as bênçãos da Santa Madre Igreja tinha 06 (seis filhas) e sob os descuidos não tão descuidados assim, da mesma Igreja retrógrada, o fazendeiro tinha mais 08 (oito) filhas de amantes diversas.

Essa era a razão de ser conhecido nas cercanias como o coronel: “Zé das Moças”.

As suas incursões sexuais com as filhas dos outros era natural e prevaleciam apenas os seus apetites, mas, quanto se tratava de suas meninas, as oficiais ou as bastardas, as coisas mudavam de figura, literalmente, que diga o povo.

No ano anterior, um infeliz que apenas bolinou os peitinhos da filha mais velha, sobreviveu à intervenção nada cirúrgica do coronel Zé das Moças e ao restabelecer-se, meses depois, resolveu apalpar a genitália e sentiu apenas uma canícula (para a passagem da urina). O sentimento de pejo avolumou-se e quando o encontraram estava dependurado numa corda, ainda balançando, como outrora balangava seus bagos e o bigulau.

Os pretendentes passavam por um crivo desgraçado e segundo as línguas viperinas era mais fácil a canonização de um santo sem os mínimos pré-requisitos necessários a uma aprovação de namoro pelo coronel.

Um destacamento da polícia militar, composto por um tenente, um cabo e três praças, da área de telecomunicações, foi enviado pelo o Estado Maior para a instalação de um sistema de comunicações naquela cidadezinha interiorana.

O fazendeiro/coronel, Zé das Moças, ao tomar ciência da chegada do grupo, mandou chamar imediatamente o tenente e ofereceu uma das casas da fazenda para o abrigo dos policiais militares, com direito a comida e roupa lavada.

O tenente, a contragosto, aceitou a oferta do coronel por saber do gênio e das atitudes do Zé das Moças repassadas pelo Setor de Inteligência da Corporação.

O serviço árduo como diabo ia progredindo, mas com a chegada da Semana Santa houve uma desaceleração quase total, pois, as obrigações religiosas impostas pela Igreja e pela força do Zé das Moças que bancava todos os custos dos fiéis, da alimentação ao transporte e quiçá a moradia improvisada, não podia prescindir da autoridade militar, o tenente e também dos praças.

O tenente participava contrariado, pois estava aperreado pelo atraso no cronograma dos serviços, em função daquela liturgia religiosa e pelo fato de ser um ateu desgraçado, mas, afinal obrigação é obrigação.

Aquela Sexta-Feira da Paixão ficou marcada na mente do tenente para sempre.

Não pela celebração solene da Ação Litúrgica que recorda a morte do Salvador, mas pela presença do bispo, ainda todo paramentado, com as vestes de cor vermelha com a presença vermelha de ira e indignação do coronel, o Zé das Moças, que aos berros gritava a pleno pulmões:

“Tenente. Tenente. Quero uma ação imediata do contrário vai haver uma desgraceira amanhã, não hoje, em respeito à morte do Nosso Senhor Jesus Cristo. Tenenteeeee.”

O tenente esbaforido foi ao encontro das duas autoridades que com ele passavam a três.

Antes de ter tempo para indagar qualquer coisa ao fazendeiro/coronel, Zé das Moças, esse com as mãos trêmulas de ódio foi logo dizendo:

“Exigo uma punição exemplar contra um dos safados de seus praças que foi pego fazendo mal a uma das minhas éguas”.

O tenente não teve tempo para pronunciar a primeira palavra, pois, o Zé das Moças, com a voz embargada e completamente destroçado fisicamente, complementou: “Ainda por cima, a eguinha era moça.”

As suas primeiras palavras foram: “Que negócio da porra!”.

Agora, na ante-sala do Alto Comando, o tenente aguardava tenso a convocação do comandante.

Esse resolvera dar a redação final ao meio do último parágrafo daquele Boletim de Exclusão das fileiras da Polícia Militar: “........ expulso por ato libidinoso e por conjugação carnal não consensual”.

Aquele comandante não cometera nenhum ilícito, apenas omitira que a relação carnal havia sido feito com um animal, uma égua mais precisamente e desta forma, protegera a imagem da Polícia Militar e mitigava o pecado perpetrado naquela Sexta-Feira Santa.

Nervoso e indignado o comandante ordenou a entrada do tenente.

O tenente cumpriu a liturgia militar de apresentação e por uns cinco minutos aguardou, em posição de sentido, a interlocução do comandante que descontrolado disse: “Tenente, que negócio ......”

O tenente, antes de deixar o comandante completar a sua indagação e sem refletir, por mero transtorno que a observação daquele fazendeiro/coronel, o Zé das Moças, causou ao mencionar a ex-virtude daquela eguinha, respondeu:

“Foi um negócio da porra, comandante”.

Não foi expulso como o soldado, mas está amargando 21 dias de cadeia e passa as horas repetindo: “Que negócio?”
“Que negócio?”

Agora tendo o cuidado de suprimir o complemento de sua frase: “da porra”.

Afinal, essa palavra é substantiva na gramática e na vida, causando filhos desejados ou não, traições, golpes do baú, mortes, condenações e no caso específico dele uma prisão que fará parte da sua ficha funcional que fatalmente o impedirá de alcançar o posto máximo da carreira, o de coronel.

Agora digo eu que não tenho nada com a estória: “que negócio complicado da porra”.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Madame

Os tempos eram outros, indubitavelmente, no final da década de vinte do século passado.

Quanto ao comportamento humano não se pode afirmar o mesmo, as suas relações não sofreram quaisquer alterações sejam mudanças na forma ou no conteúdo.

Entre os companheiros músicos de copo, o seu José Quirino, casado com Maria, não cansava de repetir com ares de fumos o aforismo de lavra própria: “O procedimento do ser humano hoje é idêntico ao do passado, e no futuro também o será, apesar das teorias afirmarem o contrário. Fico com os fatos. A natureza humana é imutável”.

José Quirino, conhecido por Quindinho nos meios musicais era integrante da orquestra filarmônica de Pernambuco, conceituado na profissão, tímido, recatado e para sua infelicidade tinha na esposa, o seu avesso. O gênio de Maria não poderia prescindir do adjetivo: mau.

Era de uma irascibilidade, de uma iracúndia monumental que somente encontrou um oponente à altura, o Presidente do Brasil, Arthur Bernardes, que exercera o mandato entre 15 de novembro de 1922 e 15 de novembro de 1926.

Maria, que exigia o tratamento de madame conjugado com seu sobrenome, sempre fora envolvida em confusões, primeiro, por não conter a sua língua viperina e, segundo, pela sua compulsiva intromissão no terreno do alheio.

Naquela época, a Igreja Católica tinha grande ascendência sobre o Poder Público que, na prática, provocava uma superposição de poderes, uma promiscuidade que passava ao largo no trato da coisa pública, em resumo, era um ente único e anômalo.

Nas apresentações solenes o Bispo fazia-se presente com toda sua imponência e pompa.

As reverências ao prelado que exercia o governo espiritual da diocese eram rigorosamente cumpridas com todas as formalidades exigidas pela liturgia do cargo.

Os políticos dirigiam-se ao Bispo com deferência máxima não esquecendo o tratamento adequado de Eminência, e respeitosamente, ajoelhavam-se, beijavam o seu anel e pediam as bênçãos necessárias, as supérfluas e os descrentes, as protocolares.

Agora, as atitudes da madame Crespo, em relação à ritualística eram uma afronta às regras do protocolo e do bom-senso.

Em quaisquer situações dirigia-se ao Bispo, no máximo usando o tratamento de senhor, e sempre para tecer comentários desairosos sobre as beatas, sobre a qualidade da água benta, sobre a necessidade de substituição de alguns santos na catedral pelos de sua devoção, e por aí seguia nas suas idiossincrasias.

Enfim, sua peroração infinda acabou provocando uma animosidade entre aquele representante de Deus e ela, uma criatura de 1,52 m de altura, mas um Himalaia de inconveniências.

Numa manhã em que o calor era senegalesco o Bispo vendo a aproximação da madame Crespo, utilizou-se do único subterfúgio que estava efetivamente às suas mãos: a Bíblia. Colocou o livro sagrado na frente do seu rosto para fingir que não a enxergara.

Não prestou.

Ouviu em alto e bom som as palavras constrangedoras da madame Crespo:

“Senhor Bispo, pode tirar o livro da cara, pois, não estais na frente do inimigo (Satanás). E sim, na presença de uma senhora muita fina e honesta, cujo marido toca na orquestra, para Vossa Excelência se deleitar”.

Assim era e agia madame Maria Emília Rolin Gamboa Faria de Castro Crespo.

Gostava de ressaltar sua descendência francesa, Rolin, salientando que possuía uma fórmula deixada a título de herança, por seus ascendentes, de um perfume denominado “Le Conde du Corqui”.

Nos estertores da década de 50 a madame Crespo, agora viúva e sem filhos, com seus 82 anos, tornou-se proprietária de uma vila de casas no Riachuelo - um dos subúrbios na Capital da República, que eram alugadas para prover o seu sustento e uma ajuda precária e inconstante, a depender do seu humor, a um sobrinho-neto.

Colocado desta forma sucinta, a sua vida, apesar das mazelas comuns da idade induz a todos crerem que não era uma vida atribulada. Um grande engano.

Seus inquilinos sofriam e penavam nas garras da madame.

Certa feita, um desses infelizes foi ao seu sobrado para fazer uma reclamação justa e acabou escorraçado, ouvindo dentre outros impropérios a seguinte repreensão:

“Ponha-se fora do meu solar, imediatamente, pois do contrário irei à delegacia fazer parte do senhor”.

Alugava os porões de suas casas e caso houvesse inadimplência, não titubeava, jogava um penico cheio de urina colhida na noite anterior pela única abertura que por mero exercício de boa vontade, chamarei de janela, a única ventilação daquele espaço exíguo e insalubre que vá lá, denominarei de moradia.

Ao lançar aquele líquido excrementício segregado pelos rins o fazia acompanhada de afrontas e de injúrias, pelo atraso do vil metal, mesmo que o fosse por um mísero dia.

Infernizava a tudo e a todos.

Tinha um pavor desmedido dos trabalhos de macumba que, aliás, eram usuais em sua vila e direcionados quase com exclusividade à sua pessoa.

Procurara os serviços de um macumbeiro que a escorchava com o fito de protegê-la dos seus desafetos que não eram poucos e o número era aumentado pela invocação deles a uma legião de espíritos errantes.

Com o passar do tempo, a madame, percebeu o engodo e levou-me a safanões à delegacia como testemunha da ação do falso pai-de-santo para denunciá-lo.

Quando as pessoas perguntavam a ela sofre a reação do “pai Quindinho”, o denunciado, respondia: “Ele estava com os beiços tremendo como um cavalo”.

E a testemunha, madame Crespo? E a testemunha?

Respondia: “O Paulo (eu) estava lívido e cabisbaixo”.

As confusões, as idas e vindas da delegacia eram tão freqüentes que o delegado não mais levava em conta as denúncias da madame.

Acordara certa feita com um despacho em frente a sua casa e sua reação foi imediata, bradando a plenos pulmões:

“Volta para quem te mandou, diz que não me encontrou e senta o cacete em quem te enviou”.

A vida seguia seu curso tortuoso naquela vila e a madame Crespo utilizava-se de uma única frase para definir e desqualificar os seus inimigos incontáveis: “Fulana (o) de tal, é uma serpente da Índia, fantasiada (o) de morcego”.

Confesso que minha cota de paciência desapareceu quando ela relatou um sonho, ocorrido na noite anterior:

“Paulo, sonhei com um cachorro chamado Tório e que ele estava sentado sobre uma pilastra, com ar compenetrado. Diante daquela cena, perguntei: Tório, o que você está fazendo aí em cima?
E o cachorro respondeu: "estou evoluindo.”

Foi o último e derradeiro diálogo que tive com madame Crespo.

Provavelmente estou num processo de involução, transformando-me, quem sabe, num cachorro, ou num rato.

Aceito esse destino sem questionamento para livrar-me definitivamente do convívio com a madame, do contrário eu que ficarei crespo, conforme definição que consta dos dicionários: áspero, escabroso, indecoroso, indecente.

Além do mais, não tenho ascendência francesa, não possuo uma vila de casas e nem disponho de uma fórmula para sobreviver, o que dirá a de um perfume francês.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Gagos univitelinos

O Memorial dos coronéis encaminhado à alta hierarquia militar, em fevereiro de 1954, protestando contra a exigüidade dos recursos destinados ao Exército e repudiando a proposta governamental de elevação do salário mínimo em 100%, tiveram grande repercussão e demissões de ministros no Governo de Getúlio Vargas..

Entretanto naquela região interiorana de Juiz de Fora a efervescência do Distrito Federal não provocara nenhum reboliço naquela rotina enfadonha, típica do interior do Brasil.

O coronel Souto Menor que jamais cerrara fileiras no Exército, mas detentor da patente pelo poder econômico não tinha nenhuma preocupação. Não assinara o documento, pois, sua patente era de outra espécie e caso não fosse, não assinaria pela discordância, mas pelo seu analfabetismo crônico e no tocante ao aumento do salário, isso era irrelevante, afinal, os colonos de suas fazendas quando recebiam alguns trocados deveriam dar graças a Deus e ultimamente, a bem da verdade, o Senhor não ouvia agradecimentos daqueles pobres diabos.

No fundo a preocupação do coronel era com a iminência do parto de sua esposa que atravessava uma gestação complicada.

No dia seguinte, a levaria para a Santa Casa, juntamente com a mulher do Nhozinho, um de seus colonos que morava num dos limites de sua maior fazenda que por essas coincidências da vida, daria luz na mesma época.

O gesto e o gosto não eram próprios e sim, da sua esposa.

Na manhã seguinte as mudanças no humor da natureza faziam-se presentes. O céu enegrecido tinha nesgas de claridade pela presença constante dos relâmpagos que vinham acompanhados da solidariedade irrestrita dos trovões.

As nuvens se desidratavam pela quantidade absurda das chuvas.

Sem alternativas para cumprir o desejo da mulher, pela impossibilidade de buscar a outra parturiente, levou a esposa ao hospital, isso sem o menor drama de consciência.

Nhozinho que não admitia que outro homem pudesse bolinar as partes da patroa ficara calado, mas contrariado com a determinação do patrão de levá-la ao hospital, entretanto, aquele dilúvio que caía, criou nele outro alento e não hesitou nem mais um segundo, partiu em busca de uma parteira no meio daquele temporal.

Quando chegaram, a bolsa já tinha estourado e as dores eram lancinantes.

Os panos de linhagem estavam limpíssimos sobre uma caixa de tomates vazia, a água já fervia no caldeirão sobre o fogão a lenha. A luz bruxuleante da lamparina a querosene trazia toda luminosidade possível para conduzir ao mundo, o bebê.

Para o espanto de Nhozinho não era um e sim, dois.

Na Santa Casa a esposa do coronel, mesmo com complicações na hora do parto, deu a luz a gêmeos do sexo masculino.

Vinte dias depois, na casa do coronel o tabelião foi lavrar as certidões de nascimentos das crianças.

Sempre por deferência da esposa do coronel, Nhozinho também providenciou a documentação dos filhos.

Aquela sucessão de coincidências: partos no mesmo dia; a chegada de gêmeos (masculinos) de ambos os casais, culminou com a escolha de um dos nomes, os do coronel, Nilo e Sérgio, os do Nhozinho, Nero e Nilo (uma homenagem exigida pela sua mulher ao nome do patrão).

Nhozinho nada sabia sobre a existência do Império Romano e muito menos da civilização egípcia (Nero – imperador; Nilo – o rio).

Caso aquele tabelião fosse um profissional digno, tentaria demover a escolha de Nhozinho ao nome Nero para o filho, afinal, naquela época, no Brasil, 70% dos cachorros recebia tal alcunha.

As crianças cresceram juntas, apesar do desnível social.

As amizades foram forjadas ao longo do tempo, nas brincadeiras, nas caçadas aos bichos e aos passarinhos, nos mergulhos e pescas no rio que cortava a propriedade.

Fizeram o curso primário na mesma escola pública e na mesma sala de aula.

Além da diferença social, existiam diferenças fundamentais entre os gêmeos, os de Nhozinho eram univitelinos, isto é, idênticos, enquanto os do coronel eram bivitelinos que só tinham uma coisa em comum, a data do aniversário.

Nilo e Nero eram cópias escarradas um do outro, além de possuírem outra identidade, essa gravosa, eram gagos.

Nesse ambiente de formação foi onde travaram o contato com a cruel realidade da vida, pois, quando na hora da chamada e chegava à letra “N”, os professores, sem exceção, chamavam nessa ordem: Nilo (o filho do coronel) e depois, Nilo Gaguinho (filho de Nhozinho).

Sofreram depois do didatismo dos professores, gozações e preconceitos das outras crianças que por natureza são cruéis, mas a solidariedade dos outros gêmeos ajudou a superar, na medida do possível, as suas deficiências.

Impossibilitados de continuarem os estudos, por imposição dos pais, afinal precisavam ajudar nos trabalhos para manterem a sobrevivência diária, cursaram até a primeira série do ginásio.

Os contatos com os amigos ficaram restritos aos domingos, isso quando Nilo e Sérgio iam à fazenda.

O tempo seguia com sua tirania, assassinando sonhos, destruindo possibilidades e impingindo sacrifícios a tudo e a todos.

A gagueira dos irmãos parecia que evoluía. Tornava, aparentemente, mais explícita pelos sons agora mais graves, em decorrência do nível de testosterona. Chegavam à puberdade.

As dificuldades da vida no campo, as privações de toda ordem e gosto acabaram moldando as suas índoles.

Para minimizarem os traumas da deficiência, tornaram-se gozadores incontidos e acrescentaram às suas unidades de comportamento, uma outra característica, a de avaros no trato com o dinheiro, talvez para contrabalançar a prolixidade nas repetições das sílabas ao emitirem quaisquer palavras. A sovinice deles desqualificava a dos mascates de origem turca ou judaica.

Os amigos estavam fazendo vestibulares para entrarem numa universidade pública, destino de todos os privilegiados que contavam e contam com a solidariedade de todos miseráveis desse país que tutelam os ricos, mesmo ignorando suas condições de mecenas compulsórios, pelo criminoso imposto regressivo, mas isso é outra estória.

Os filhos do coronel ingressaram nas faculdades de suas escolhas e nas férias escolares retornavam as suas origens e não deixavam de conviver com os antigos amigos gagos, sempre na medida das possibilidades desses, impossibilitados pelo trabalho árduo na fazenda e que ultimamente recrudescera, pois, miseravelmente a parte da manhã dos domingos foi abocanhada pela ordenha das vacas.

Eram desgraçadamente explorados e por explorados, aceitavam as desditas como uma benevolência do coronel Souto Menor, afinal os serviços andavam escassos pela mecanização da terra.

Nesse intervalo de tempo os irmãos de “loquacidade intermitente” (expressão politicamente correta para os gagos) procuraram atendimento na rede pública para amenizar os seus problemas, mas as fonoaudiólogas concorriam com as suas deficiências nas hesitações, eles nas articulações das palavras, elas no comparecimento ao serviço.

Enfim, o somatório das hesitações formava um todo deplorável.

A formatura dos filhos do coronel foi memorável. Os filhos de Nhozinho vibraram como as conquistas fossem deles. Não cabiam de tanto orgulho e de tanta gagueira.

Depois da longa batalha para se formarem, Nilo e Sergio resolveram descansar por uns dois meses, antes de decidirem sobre o futuro e aproveitaram o tempo para matar as saudades de um passado não tão remoto.

Nos finais de semana procuravam iguarias diversas, em diversas localidades, mas sempre na companhia dos amigos gêmeos (gagos). Num local específico, a especialidade da casa ficava adstrita a uma determinada carne de caça e como as predileções variavam, as incursões eram várias.

Num certo domingo a iguaria a ser degustada era carne de paca, a predileta de Nero - o gago, mas desafortunadamente, Nero estava adoentado com espinhela caída.

Mesmos contrariados seguiram para a comilança.

O grupo não passava de 15 pessoas, todos colegas do passado e o amigo, Nilo, o tartamudo.

Serviam da purinha diretamente do barril que intercalavam com rodadas estonteantes de cervejas estupidamente geladas.

As conversas giravam sobre todos os assuntos, abordando o passado, o presente e especulações sobre o futuro. E tome purinhas e cervejas.

Nisso um filho da puta que sempre há em qualquer situação, eleva a voz pedindo silêncio.

Depois de certo tempo, o silêncio pedido faz-se presente.

O calhorda, após deglutir seu copo de cerveja diz: “Nilo, vou propor uma aposta: Caso você peça ao garçom em alto e bom som, uma cerveja, sem gaguejar, você não paga a sua parte na conta de hoje, nem nos próximos três encontros. Fechado?”

Os murmúrios variavam entre concordâncias e expressões do tipo:” isso é sacanagem”.

Nilo não titubeou (mera força de expressão): “Eeeeuu......aaaaceeiitttoooo”.

Aquele brevíssimo mal estar passou com a concordância da vítima.

As rodadas de bebidas, os tira-gostos, as conversas altas e desconexas continuaram sem tréguas.

Apenas, Nilo – o entarmelado - ficou num silêncio sepulcral, absorto por uns 50 minutos, ininterruptos.

Nilo, o agora doutor, percebeu o silêncio obsequioso do amigo e preocupado ia esboçar um comentário naquele ambiente tumultuado quando é surpreendido, como os demais, pelas porradas na mesa do outro Nilo, o gago.

Solenemente, levanta-se da cadeira e emite um som gutural como estivesse limpando a garganta e põe o dedo indicador sobre os lábios, num sinal explícito de pedido de silêncio.

Todos ficam estupefatos.

Nilo, o gaguinho, sinaliza para o garçom e num esforço hercúleo faz o pedido: “Garçom, uma cerveja” (isso, de forma arrastada, tirando as palavras a fórceps, sem gaguejar).

Atônitos no primeiro momento aquele grupo começa a berrar e bater palmas e mais palmas para o Nilo, agora, o ex-gago.

A alegria é contagiante, de Nilo e de todos.

Aquele júbilo do Nilo tinha duas razões claras:

- primeiro, por ter vencido pela primeira vez na vida aquela impossibilidade, aquela penosa hesitação na articulação das palavras, aquela demora e perpétua repetição das palavras;

- segundo, por avaro no trato com o dinheiro, não despenderia um tostão por outros e por aquele festim que ficava devendo, apenas, aos banquetes de Bacon pela ausência da lascívia, em função da inexistência de mulheres.

Nilo, o ex-gaguinho, continua em êxtase.

Nisso, o garçom retorna e faz a seguinte indagação: “Brahma ou Antártica????”

E Nilo lívido, responde: “Aaaaahhhh....Aa aa-ai ai aiiiii ....fu fu fu deuuuuuu”.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A saga de um Paiva


O arco do tempo tem uma de suas pontas fincadas no período escravagista quando os negros do grupo banto de Angola e das costas do Congo e de  Benguela chegaram como escravos nos costados do Brasil, mais precisamente, no atual estado de Pernambuco.

Tinham em comum, além da dor e do desespero, a língua bunda.

Com as fugas, os poucos escravos originários e seus descendentes esconderam-se numa ponta de terra que entrava pelo mar adentro, nominada de Cabo de Santo Agostinho pelos Oficiais da Companhia de Jesus, os jesuítas, que batizavam tudo, das cabeças cruéis daqueles detentores de escravos a seus chicotes, e o faziam sem pruridos, mas com dízimos regiamente crescentes e despudoradamente compulsórios.


Naquele local, de águas mornas, as ondas eram enormes como que a natureza quisesse assinar a sua revolta, o seu protesto contra as indignidades perpetradas contra os corpos daqueles desgraçados cujas cicatrizes eram a impressão das ofensas e das desgraças que foram submetidos.

Banhavam-se nas piscinas naturais daquela parcela de mar que denominaram de praia, a Praia do Paiva, numa homenagem justa ao primeiro escravo que descobriu e conduziu os demais, em tempos pretéritos, àquela região de paz e de procriação entre si.  

O problema advindo da consangüinidade não tardou, mas os nascimentos continuavam apesar das mortes prematuras e das anomalias nos nascituros que vingavam, afinal os ditames que os norteavam era de manterem a unidade, perdida desde que seus ancestrais foram lançados nos porões pérfidos dos navios negreiros.

A outra extremidade do arco encontra apoio nos meados de 1950, numa noite assustadora pelas forças dos ventos e pelo eclipse lunar.

O ambiente estava irrespirável não pela precária circulação de ar nas parcas dimensões  daquele cômodo tosco, iluminado por uma lamparina de querosene, mas pela tensão provocada por aquele parto natural que de natural não tinha nenhum resquício, pois, apesar da criança estar devidamente encaixada, a dilatação da mãe não era suficiente, apesar dos seis partos anteriores terem transcorridos sem nenhum óbice.

O problema decorria da anomalia genética comum naquela comunidade desde aqueles tempos ancestrais, gerada pela aludida consangüinidade perpetua, mas aquele nascituro tinha uma proeminência exagerada que desqualificava a dos demais (descendentes), pois, o prolongamento do queixo era desgraçadamente digno do vocábulo “queixada” que martirizava a mãe e dificultava a sua chegada ao mundo.

Com a continuação das dores lancinantes, a mãe deixou de implorar a Deus a sua ajuda, após, horas de suplícios e de pedidos reiterados, e, então, apelou ao Coisa Ruim.

Este não se dignou a dar o ar de sua graça, afinal a alma daquele moleque já o pertencia e seu tempo, por mero pragmatismo, era dedicado a conquistar almas de propriedade de seu adversário figadal.  Em outras palavras, atender o clamor da mãe seria inócuo aos seus propósitos.
Contudo, segundo comentários de um assecla do diabo, ele não iria em hipótese nenhuma, pois, cumpria fielmente as normas por ele promulgadas, afinal o ar naquele casebre, pelo passar do tempo, tornara-se quase  irrespirável, isso tomando por base o índice de suportabilidade do ar (ISA), do inferno.

A passagem daquele portentoso queixo provocou os desmaios da mãe, pela dor excruciante, desumana; das três parteiras, pela visão daquela anomalia estupenda e por tabela, causou uma indecisão patética no pai que levou alguns segundos preciosos para completar o serviço, ou seja, dar os tradicionais tapinhas nas costas do recém-nascido.

No nervosismo do momento, a última das palmadas, aliás, a mais forte foi de encontro a uma das metades da bundinha do bebê, e esse tapa causou mais uma deformidade naquele pequenino que, do contrário, ostentaria um senhor calipígio.

O tempo foi passando e aquele moleque realmente tinha parte com o capeta, pois, infernizava a vida das outras crianças, nas brincadeiras, nas pescarias, nos banhos de lamas que segundo a lenda tinha propriedades especiais.

E dentre essas qualidades, a mais desejada era a de provocar o crescimento, afinal àquela população, as estaturas eram baixas em decorrência de mais um dos efeitos colaterais dos casamentos parentais e, por isso, chafurdavam na lama.

Aquele guri não fugia a regra da altura diminuta, em compensação às duas exceções eram evidentes: o tamanho descomunal do queixo e a capacidade de recriar situações vividas ou não, sempre apoiadas na galhofa.

Em razão das gargalhadas provocadas, os ouvintes adultos esqueciam a natureza de cão daquele pivete que ficou patenteado quando num ataque convulsivo destruiu a pia batismal da capela do povoado, ao sentir o derramar de água sobre sua cabeça para lavar o seu pecado original.

O padre indignado e preocupado por não ter a dádiva do exorcismo não proferiu as palavras sacramentais para completar a liturgia e considerou que batizado estava e ponto final.

A vida seguiu seu curso natural e Dudu, o moleque travesso, seguia sempre em frente, aos empurrões, contudo, entre avanços e recuos, só Deus sabe como, acabou se formando em uma faculdade pública.

Imigrou para o Rio de Janeiro, prestou concurso público e passou com a distinção de não ser o último colocado, foi o antepenúltimo.

O desconforto no primeiro mês de trabalho era natural, primeiro, pela tensão advinda do primeiro emprego, segundo, pelo desconforto no vestir, as suas roupas estavam gastas e puídas pelo tempo. Entretanto, tudo era uma questão de tempo e no caso, pouco, no final do mês com o holerite na mão foi às compras.

Por fidelidade aos fatos, abro um parêntesis (Foram as primeiras compras a prestações, que por vício ou necessidade, em tempo algum da sua vida, jamais conseguiu sair dos malditos crediários. Fecho o referido sinal gráfico).

Por natureza e gosto, as cores das vestes compradas eram berrantes, isso para ser condescendente, pois o uso do superlativo seria o mais adequado.

No dia seguinte, ao adentrar no ambiente de trabalho sentia-se enorme, apesar da baixa estatura, mas seu ego não se continha em suas roupas.

Aquele ego deveria ser analisado nos maiores institutos de psiquiatrias do mundo, pois conseguia ser mais extravagante que o gosto do Dudu. (e olha que isso não é pouca coisa).

Deu um sonoro bom dia aos colegas de trabalho e só depois num gesto ensaiado exaustivamente retirou da face aqueles óculos azuis com suas lentes diminutas, em formato redondo, um verdadeiro despropósito, tanto na utilidade, pois, estava em ambiente fechado, longe dos raios solares, quanto no absurdo da escolha. 

A partir desse momento, tornou-se uma figura ímpar, ou melhor, numa figurinha carimbada para seus pares, mas a bem da verdade, querida, por sua capacidade de desanuviar qualquer ambiente com suas tiradas espirituosas e às vezes conjugada com certa dose de ingenuidade.

O importante é que nos meados dos anos 80 aquele neguinho sagaz alcançava uma posição de destaque profissional, em sua especialidade, complexa por natureza.

Faria sua primeira viagem internacional com o peso de representar a sua empresa num Congresso Internacional, onde participaria do último painel do evento, o mais importante e o mais concorrido, tendo a responsabilidade de ser último palestrante.

O fato de não se expressar em inglês, a língua oficial do evento, não causou nenhum desconforto, pois, existia a tradução simultânea para diversas línguas, executadas por profissionais que dominavam, também, os temas técnicos a serem abordados.

O Congresso transcorria dentro das expectativas dos organizadores quanto a dos participantes.

Isso até a chegada do Dudu que adentrou o recinto com um semblante sóbrio, mas em compensação, com uma indumentária multicolorida que chamou atenção, inclusive dos olhares mais desavisados.

Feita a saudação de praxe, iniciou a palestra.

Exatamente na metade do tempo de sua exposição, aconteceu o inesperado, um gráfico projetado apresentava um dado completamente equivocado que era o fulcro do estudo em apresentação. A principal variável que embasava e sustentava a tese estava grotescamente errada na tela como no estudo.

Na platéia de especialista, as vozes de questionamentos sobre aquele desgraçado erro surgiram imediatamente, transformando aquele espaço numa verdadeira Torre de Babel.

Diante da situação insustentável ao perceber a tragédia que destruía a sua reputação e maculava definitivamente a imagem de sua empresa, tentou ganhar tempo e de sua boca sustentada, inequivocamente, por aquele queixo proeminente, saiu a expressão: Veja bem! Veja bem!

Quando os tradutores transpuseram para as línguas a expressão (Veja bem!) o dano foi maior, pois, os impropérios dos participantes tomaram uma dimensão desqualificadora,  afinal, as expectativas frustradas de uma inovação que transformariam o segmento daquelas indústrias não passava de um charlatanismo.

No meio do caos, Dudu perdido utilizou-se do seu único trunfo, a bunda. Não a bunda anômala dele, mas a língua de seus antepassados.

Sem tradutores capacitados para verterem as palavras proferidas pela ruína humana que se transformara Dudu; sem controle contra a indignação dos participantes, os responsáveis do evento solicitaram a entrada dos paramédicos que ao constatarem que Dudu estava arrebatado por algo que desconheciam, não titubearam, colocaram numa camisa-de-força de uma única cor, branca, e encaminharam para um Instituto de Psiquiatria.

Loucos ficaram os promotores do evento com os insultos, com as ameaças de processos dos participantes que efetivamente ocorreram, deixando-os falidos, em termo privados, e   execrados publicamente.

No retorno ao Brasil a empresa em que trabalhava o Dudu para não ferir a legislação trabalhista, apesar de encontra-se ferida de morte pela pulverização, no sentido de transformar em pó, dos valores  de suas ações no mercado de capitais, o encaminhou a diversos especialistas e pagou regiamente os tratamentos.

Tentativas vãs, para a empresa e para Dudu.

Nos corredores sombrios do manicômio, Dudu com a síndrome de múltiplas personalidades surpreende os médicos em sua insanidade.

Li o prontuário da semana passada.

Na segunda-feira, Dudu, vestido apenas com uma bóia de criança, essa de plástico vagabundo que tem a figura de um patinho, desfilava emitindo um som quase inaudível: Ajuda! Ajuda!

(abaixo do relato acima, havia uma observação transcrita por um médico: “o pai do paciente relata que o mesmo não sabe nadar e em tempos passados, por impulso lançara-se de uma escuna ao mar e para não aumentar o ridículo da situação, ao invés de berrar: Socorro! Socorro!  - gruiu: Ajuda! Ajuda!”); 

Na terça-feira, Dudu travestiu-se de motorista e, com uma tampa de panela nas mãos a fazia de volante. Indagado pelos profissionais respondeu que não era um motorista qualquer e, sim de Kombi. E imitava  os sons do motor da mesma.  

(abaixo consta a transcrição de um psiquiatra: “a esposa do paciente relata que para minimizar os transtornos para a ida ao trabalho e o retorno para casa, o Dudu convenceu alguns colegas de trabalho que moravam no mesmo subúrbio a se cotizarem para a compra do aludido utilitário e se revezarem na direção. O projeto foi implantado, mas com um único senão, não houve revezamento, e Dudu transformou-se em motorista oficial. Resultado: acordava mais cedo, chegava mais tarde e era obrigado a aturar as idiossincrasias dos colegas, a manutenção do veículo, etc. Essa maldita idéia o levou ao estresse e ao divã de um psicanalista!”);

De quarta-feira a sábado, o comportamento do Dudu foi um mistério, pois, ficou diante de uma caixa de fósforo que segundo ele, era a sua televisão. Ficava absorto como estivesse a desejar a concretização de uma determinada imagem; de repente imitava um apresentador de auditório com um sorriso nos lábios e o indefectível: Ai, ai, ai... ai, ai, ai, e finalmente, levantava do chão e como estivesse a beira de uma janela ficava aguardando a chegada do caminhão do Baú da Felicidade.  Essa seqüência acima não era seguida nessa ordem ao longo do tempo.


(abaixo consta à transcrição de um psicólogo: “segundo a esposa do paciente, Dudu se transformava num crédulo estúpido quando aguçavam a sua cobiça. Convencido não é bem o termo para o meu marido ter aceitado as argumentações e a proposta de um vendedor de carnês que prometia o sorteio (nada ortodoxo), num programa dominical, de um dos carnês das dezenas que foram empurrados para pagamento. Ele acreditou. Ficamos seis meses a frente do televisor esperando o sorteio. Quando percebeu que tinha caído no conto-do-vigário à desgraça estava feita. Minha mãe separou-se de meu padrasto pelas cobranças dos agiotas, pois, Dudu os convenceu a investirem naquele negócio. Vendemos o que tínhamos dentro de casa para não sucumbirmos às ameaças daqueles brutamontes dedicados a agiotagem. Passamos meses a pão com banana.”);

No domingo, Dudu com brilhos estranhos nos olhos e com a verve dos causídicos fazia discursos densos em bunda, sempre em pé para cumprir a liturgia dos grandes oradores e para não sentir o desconforto de sua bunda, no ato de sentar. 

Os registros daquele domingo em curso seriam assentados depois. Contudo, assistia aquela cena patética e comovedora a certa distância.

Quando percebi, estava revisando o passado daquela triste figura. O destino cruel, como o tempo, não havia deixado um mísero atalho como alternativa para sua vida e os seus passos sempre foram perdidos desde o nascimento até a presente hora.

A maioria das crianças nasce de cabeça para o mundo, ele nasceu de queixo para o universo e esse sinal já era um indicativo que sua vida seria um estorvo.

Isso, não levando a termo as súplicas da mãe no momento do parto, a Deus e depois ao Diabo que foram solenemente ignoradas e por questão de preservar a minha alma não estabelecerei nenhum juízo de valor sobre esse fato.

Sempre foi um desigual e continuará sendo, pois, suas bundas, a física e a falada são incompreensíveis aos mortais, mesmo relevando a sua queixada que apesar de anômala tem mais um vício, a de teimosamente chegar primeiro que o seu nariz. 

Triste o destino do Dudu. Hoje, palestrantes de todos os matizes utilizam o seu revés naquele Congresso Internacional, como “case”, ganhando fortunas, provocando risos nas platéias, e cretinamente não pagam os devidos royalties ao Dudu.